Biografia: Cesar S. Cesar
Eu vim de uma família de empreendedores. Os avós dos meus avós já eram empreendedores. Eles nunca tiveram empregos e sempre se aventuraram. Eu não poderia ser diferente. Desde os 11 anos, quando ganhei meu primeiro computador (um TK-82C), eu já programava e brincava de ser dono de empresa de software. A tecnologia sempre foi uma das minhas grandes paixões, e eu era um geek legítimo. Mas apesar dos geeks começarem suas empresas bem cedo, como foi o caso do Bill Gates, 11 anos de idade era um pouco precoce demais para um go-to-marketing naquela época (em 1982 não existia Internet… hoje é possível sim um garoto de 11 anos começar seu negócio).
Mas eu queria ser independente de qualquer forma. Como eu disse, estava no sangue! Resolvi montar um empreendimento de verdade com base em outra de minhas paixões: a música. Peguei aparelhos emprestados do meu pai, convidei um vizinho para sócio e começamos a trabalhar na Dual Sound, nossa nova equipe de som. Aos 13 anos eu praticamente já me sustentava. Gostava de fuçar e descobrir novas bandas e estilos, e inovar nas minhas apresentações como DJ. Os meandros da operação nunca foram minha praia, por isto me cercava de sócios e colaboradores que fossem competentes nisto. Nós fazíamos nosso trabalho com muita paixão e propriedade e por isso crescemos. Cinco anos depois, em 1989, já possuíamos cinco equipes de som, programa de rádio e boate na Barra da Tijuca, no Rio. O trabalho como DJ me ajudou a descobrir o público, a interagir e aprender com ele.
Conciliava meu negócio com os estudos do segundo grau técnico em eletrônica do CEFET-RJ. Aos 18 anos, entrei para a engenharia de sistemas na UERJ e passava os dias entre as aulas, o estágio na empresa do meu pai e as noitadas profissionais como DJ. Foi na UERJ que conheci o Jaime, atualmente meu sócio e CEO da Venture Commons.
O tempo era apertado para tantas atividades e acabei por desprezar o estágio. Segui o curso técnico e a engenharia pois estava me preparando para um dia assumir os negócios do meu pai, mas o que eu queria mesmo era continuar com meu empreendimento de DJs. Numa dessas madrugadas, retornando do trabalho, sofri um grave acidente de carro. Não me feri, mas o susto foi suficiente para que meu pai deixasse claro que o negócio de DJ não era o que ele mais gostava. Pela harmonia de minha família, optei por vender minha parte na Dual Sound e me afastar da vida noturna.
Passei a me dedicar exclusivamente à engenharia e a EIK - a indústria do meu pai. Era 1990 e veio o Plano Collor, cujo efeito foi devastador sobre os negócios. Os clientes da EIK eram todos empresas estatais. O plano suspendia por dois anos qualquer compra por estas empresas, além de congelar todo o capital de giro do meu pai. Dois anos se passaram e minha família tinha problemas financeiros. E eu poderia estar ajudando, se não tivesse vendido meu negócio super-lucrativo de DJ por causa da minha própria família. Coisas da vida…
Aprendi bem cedo que em cada adversidade há uma oportunidade disfarçada. Aproveitei este infortúnio para dar um basta na minha carreira de “filho do meu pai industrial” e retornar a minha primeira paixão: a tecnologia. Larguei a engenharia, fiz um novo vestibular e, em 1993, passei para o P15, o antológico curso de processamento de dados da PUC-RIO. Pagava as mensalidades com o que restava das minhas economias. Naquela altura da vida (aos 22 anos sic!), seguir a cronologia padrão dos universitários estava fora de questão pra mim. Resolvi adiantar e estudar em poucos meses todas as matérias que seriam ministradas nos próximos 4 anos da faculdade. Assim recuperaria o tempo perdido e estaria pronto para reiniciar meus negócios, agora no setor de tecnologia, quando a oportunidade aparecesse.
Logo no primeiro ano do P15, consegui estágios na Dataprev e no IBASE, a ONG do Betinho. Um ano antes, por ocasião da conferência mundial ECO-92, realizada no Rio de Janeiro, o IBASE e a UFRJ trouxeram para o Brasil o primeiro backbone de Internet do país. O objetivo era permitir que as ONGs no mundo inteiro pudessem participar do evento. Terminada a conferência, o IBASE resolveu democratizar o acesso ao backbone e, para isto, montou o primeiro provedor de Internet do Brasil: o Alternex.
Meu primeiro contato com a rede das redes foi em 1993, quando fui alocado ao Alternex. Foi amor à primeira vista!
Tive o prazer de trabalhar com o Saliel Figueira Filho, o “Saff”, que era o mago da Internet no Brasil. Foi ele quem me batizou com o user name “cesarx2″, dando origem ao apelido “X2″ que até hoje me acompanha. Usávamos a Internet para trocar e-mails e fazer pesquisas nos banco de dados de organizações pelo mundo afora. No início não existia web ou browser gráfico. Trabalhávamos numa máquina Sun/Solaris (Unix) com interface gráfica (X-Windows) e monitor de 21″ (maior que minha televisão na época). Mas… para acessar a Internet, abríamos uma janelinha de terminal texto e começávamos a digitar dezenas de comandos para “navegar” pelo gopher, veronica, ftp, telnet e outros serviços disponíveis na rede. Insano!
Três episódios ficaram bem guardados na minha memória. O primeiro foi a caça a um hacker internacional, com o Saff participando de um esforço conjunto com técnicos do mundo inteiro. Concretamente o meu primeiro contato com a globalização. O segundo foi a chegada, em 1994, do primeiro browser: o NCSA Mosaic (que meses depois virou o Netscape). FANTÁSTICO!!! Como ficou simples navegar, passávamos de um site para o outro através de cliques em links, as fontes eram legíveis e coloridas e as páginas tinham imagem e até som! Entendi ali o impacto que a Internet teria na sociedade, ao imitar o modelo associativo de conhecimento empregado pelo cérebro humano e ao amplificar as interações sociais em escala global. Percebi também a velocidade impressionante que esta revolução iria ocorrer ao acompanhar os rápidos desdobramentos da oferta pública inicial de ações (IPO) da Netscape. A humanidade estava se digitalizando diante dos meu olhos, e eu estava quase no epicentro deste terremoto!
O terceiro episódio eu somente consegui desvendar agora, 12 anos depois. Faz tempo que não encontro o Saff, mas naquela época, era uma figura com visual de profeta, que só trabalhava de bermuda e adorava seu fusquinha antigo. Conhecia literalmente meio mundo e era adorado por todos. Com o seu conhecimento de Internet, poderia ter ido trabalhar ganhando montanhas de dinheiro em qualquer empresa do mundo. Mas não foi. Recusou várias ofertas e continuou ganhando seu salário modesto. No final eu te conto o porquê… continue lendo! ;o)
Retomando minha história, em 1995 um amigo do Alternex foi para a COPPE/UFRJ montar um sistema que integrava as faculdades do Brasil inteiro com a CAPES através da Internet. Aceitei o convite para trabalhar em sua equipe. Era um projeto de ponta, que exigia um ritmo mega-intenso, fazendo-nos dormir e acordar lá no “fundão” (onde fica a COPPE, no bairro da Ilha do Governador, um lugar beeem afastado do centro do Rio). Na implementação do sistema utilizávamos conceitos avançados, como Orientação a Objetos, e uma nova linguagem de programação: o Powerbuilder.
Em 1996, o Líglio, um colega da COPPE, me chamou para um novo desafio. A Shell havia definido a plataforma Powerbuilder como padrão para suas subsidiárias em todo o mundo. A consultoria Origin (atualmente Atos Origin) era responsável pelo desenvolvimento dos sistemas da Shell, e precisava urgentemente criar um núcleo de expertise em Powerbuilder para atender seu maior cliente. Mas não exisitia desenvolvedores de Powerbuilder no Brasil, exceto os originados na COPPE. Foi aí que entramos. Concebi uma espécie de conjunto de blocos de construção (uma biblioteca de classes, que denominei AFS), onde toda a parte complexa dos sistemas estaria centralizada. Os desenvolvedores precisariam somente aprender o básico do Powerbuider para combinar os blocos e construir os sistemas que a Shell precisava. Funcionou. Eu assumi a liderança do projeto AFS, e cerca de 40 desenvolvedores trabalhavam em onze aplicações utilizando meus bloquinhos.
Como a Origin não assinava carteira, eu e o Líglio nos associamos para criar a TechnoSource, empresa cujo intuito inicial era apenas passar NFs para recebermos nossos salários como PJ. No entando, o Powerbuilder estava se tornando uma febre e percebemos uma oportunidade de fazer nossa empresa crescer. Reunimos um time de experts em Powerbuilder e fomos à luta. Começamos modestos, trabalhávamos em casa, investimento zero. Nossos profissionais ficavam alocados no próprio cliente, permitindo que evitássemos os custos fixos. Em 1997 conseguimos um grande cliente: a Rio Sul Linhas Aéreas, empresa do grupo VARIG.
Aos 26 anos eu acumulava as diretorias de tecnologia, marketing e comercial. Lidava diretamente com os CIOs cinquentões de grandes empresas - uma experiência muito educativa do ponto de vista social (e cardio-vascular!). Por questões de marketing a TechnoSource virou Nexxa Technologies. Nosso foco foi ampliado para soluções de e-business B2B, em qualquer linguagem, usando a Internet como meio de integração. Crescemos bastante. Em 2000 possuíamos uma grande equipe e prestávamos consultoria para gigantes como Shell, Danone, Rede Globo e CVRD - Companhia Vale do Rio Doce. O Jaime trabalhou na Nexxa em dois períodos, da segunda vez conquistando ações na sociedade devido a uma atuação brilhante como Diretor de Operações.
A empresa estava indo bem, mas eu e o Líglio tínhamos algumas divergências sobre os caminhos que iríamos tomar adiante. Optei por vender a minha parte e passar um tempo afastado, meditando, reformulando meus conceitos e planos. Olhando para trás, acredito que realmente tomei esta decisão pois estava cansado de lidar com as áreas corporativas de TI, com seus deadlines e estresses desnecessários… um baixíssimo custo-saúde x benefício na minha visão. No fundo, ao vender a Nexxa, torcia para encontrar uma oportunidade que me abrisse novos mercados, ainda relacionados com tecnologia, mas que me proporcionasse uma abordagem diferente. Deu certo…
Três meses depois, em abril de 2002, fui convidado para assumir a direção comercial da Hands, empresa especializada em tecnologia e serviços mobile. Eu a conhecia bem, pois era usuário assíduo do portal móvel Hands. Em termos profissionais a oportunidade era sem igual. Eu iria continuar trabalhando com tecnologia de ponta, mas agora numa empresa B2C, cujo cliente é um público composto de usuários-finais (no more IT!). Além disso, pela primeira vez iria trabalhar com uma empresa de capital de risco (a Ideiasnet, sócia da Hands), o que seria uma excelente oportunidade para eventuais empreendimentos futuros. Como se não bastasse, o potencial de fortalecer meu networking era absurdo, já que a Hands ocupava (e ainda ocupa) uma posição central num ecossistema que envolvia fabricantes de terminais, operadoras de telefonia celular, grupos de comunicação e mídia, portais de internet, agências de publicidade e grandes anunciantes. E eu seria o ponto de contato da empresa com todos eles!
Mas nem tudo são flores. Entrei num momento delicado da Hands. A bolha da Internet havia estourado meses antes e as ações da Ideiasnet na BOVESPA estavam em baixa. O faturamento estava em queda livre e a nossa única receita na prática vinha da IBM, que tinha um contrato de exclusividade para anunciar na homepage do nosso portal móvel. Eu não conhecia nada do mercado de publicidade e a idéia vigente depois da bolha era que seria dificílimo conseguir anunciantes com verbas decentes para veicular nos demais canais do portal Hands. Para os sócios, a princípio, a saída era desenvolver novos produtos móveis corporativos, direção que começamos a rascunhar logo na minha entrada. Mas não havia caixa para agirmos com velocidade suficiente. Como solucionar essa?
Entra em cena o universo, amigo velho, que sempre conspirou a meu favor (pra quem não me conhece pessoalmente, eu sou o otimismo em pessoa). O contrato publicitário com a IBM estava próximo de uma renovação trimestral. Entrei em contato com a sede deles em New York para as negociações. Pra minha surpresa, pela primeira vez vi uma empresa renovar um contrato sem sequer pedir um reajuste de preços - para baixo, obviamente. Foi aí que percebi que a publicidade ainda desenvolvia um papel importante. Pra quem não sabe, a bolha da Internet teve entre suas culpadas as verbas publicitárias desproporcionais que eram investidas nos sites e portais. Os sócios da Hands viveram a bolha na pele. De certa forma estavam traumatizados, por isto haviam desistido do modelo de receitas publicitárias. Mas eu, apesar de trabalhar com a Internet desde seus primórdios no Brasil, sempre mantive os conceitos fundamentais de cash-flow e rentabilidade em mente, e por isto pude assistir a bolha estourar sem ser afetado. Logo, suspeitei que a renovação daquele contrato era um sinal de que o modelo publicitário ainda era válido, e que a bolha teria, no máximo, o refinado. Resolvi investigar.
Estudei tudo o que pude do mercado publicitário. Fiz um levantamento para conhecer melhor nossa base de usuários e sua demografia, para que pudesse verificar se o preço cobrado era justo. Pedi ajuda aos amigos da Ogilvy, agência responsável pelas peças publicitárias brasileiras da IBM, para entender o porquê a publicidade na Hands era tão importante para a ela.
Conversei com outros anunciantes para saber se eles teriam interesse em anunciar na Hands. Compilei todas as informações e apresentei para os sócios, junto a uma proposta ousada de quebrar a exclusividade da IBM para permitir a entrada de outros anunciantes. Uma estratégia suicida, mas que depois de uma longa e tensa negociação, acabou dando certo.
O faturamento da Hands voltou a crescer, sendo 85% dele proveniente de publicidade. Conseguimos comprovar que o modelo publicitário não só continua se aplicando a Internet, mas ao mundo mobile também. Devido aos bons resultados, acabei me tornando sócio da Hands. Hoje exerço a função de Diretor de Inovação e Estratégia.
Mas acredito que chegou a hora de um novo estilo de empreender, menos corporate e mais artístico, no sentido de criatividade e ausência de regras (e pré-conceitos herdados da era industrial). Tenho uma infinidade de idéias de micro-empreendimentos de Internet, que somente agora, com as redes de advertising tipo “pay-per-click” e o fenômeno do “crowdsourcing“, passam a ser viáveis. Estamos iniciando a Venture Commons com a finalidade de colocar em prática estas idéias, seguindo um novo estilo de empreender, colaborativo, com baixo investimento financeiro e alto investimento intelectual.
Lembra que eu mencionei o Saff, o mago da Internet que eu tive o prazer de trabalhar no Alternex, e que não aceitava nenhuma outra oferta de emprego, pelo dinheiro que fosse? Pois é, prometi contar as razões dele para isso, lá vai: segundo o Saff, por nada nesse mundo ele trocaria trabalhar de bermudas, num lugar pertinho de casa, onde pudesse desenvolver suas idéias sem depender de ninguém, precisando apenas do seu computador e uma conexão com a Internet. O ideal de trabalho que ele tinha sacado naquela época, em 1995, só agora em 2007 fez sentido pra mim. E está tomando forma com a Venture Commons.
Saff, você realmente é um visionário!



Gostei muito da biografia!!!!
Grande abraço do amigo,
Thiago Holanda.
May 5th, 2008 at 8:02 pm